Envelhecer também transforma o mercado: por que o etarismo precisa sair da pauta e entrar na prática?

O Dia Nacional e Internacional da Pessoa Idosa, celebrado em 1º de outubro, costuma ser associado a homenagens e reflexões sobre o envelhecimento. Mas existe uma discussão que precisa ir além da data comemorativa: quais espaços estamos construindo para as pessoas maduras na sociedade, nas empresas e no mercado de trabalho?

O Brasil tem cerca de 35,2 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a cerca de 16,6% da população do país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). Desde 2012, esse contingente cresceu aproximadamente 59%, impulsionado pelo aumento da expectativa de vida e pela queda da taxa de natalidade. As projeções apontam que essa população continuará crescendo nas próximas décadas, podendo ultrapassar 61 milhões de pessoas nos próximos 20 anos. 

Esses números ajudam a dimensionar uma transformação que já está acontecendo e que vai muito além da questão demográfica. O envelhecimento da população modifica relações de trabalho, hábitos de consumo, formas de participação social e também o perfil dos viajantes. Para empresas e profissionais do setor de viagens e eventos corporativos, compreender essa mudança significa olhar para a longevidade não apenas como uma questão social, mas também como parte das transformações que já impactam os negócios. 

O envelhecimento já chegou às empresas

Quando falamos em longevidade, ainda é comum que a conversa seja direcionada exclusivamente à terceira idade como um grupo de consumidores. Mas existe uma outra dimensão igualmente importante: as pessoas maduras continuam trabalhando, liderando, empreendendo, viajando, produzindo conhecimento e participando ativamente da economia.

Dados do IBGE mostram que, em 2024, o nível de ocupação entre as pessoas com 60 anos ou mais foi de 24,4%. Entre aqueles de 60 a 69 anos, chegou a 36,2%.

Isso significa que falar sobre longevidade também é falar sobre carreira, empregabilidade, liderança, diversidade e relações entre diferentes gerações. E é justamente nesse ponto que o etarismo precisa ser discutido.

O preconceito relacionado à idade pode aparecer de formas explícitas, como uma barreira para contratação ou promoção, mas também pode se manifestar de maneira mais sutil: na ideia de que determinados profissionais estão “velhos demais” para aprender uma nova tecnologia, assumir uma função ou acompanhar mudanças. Da mesma maneira, colaboradores mais jovens podem ser subestimados pela falta de experiência.

O desafio, portanto, não deveria ser escolher uma geração em detrimento de outra, mas criar ambientes capazes de aproveitar a contribuição de diferentes momentos da vida profissional.

Uma discussão que já esteve no centro do LACTE

Essa não é uma reflexão nova para a ALAGEV. Em 2024, durante o LACTE 19, o etarismo foi escolhido como causa central da edição. Em parceria com a Maturi, empresa especializada em longevidade e inclusão de profissionais 50+ no mercado de trabalho, a programação trouxe discussões sobre gestão multigeracional, longevidade e a chamada economia prateada.

Naquele momento, um estudo realizado pela Maturi com 191 empresas de 13 setores mostrou que cerca de 80% das companhias entrevistadas não possuíam políticas específicas para a contratação de profissionais 50+. O levantamento também indicou que apenas 26% das empresas tinham o tema do envelhecimento em sua agenda estratégica, com ações em andamento ou previstas para os 12 meses seguintes.

Esses números ajudaram a colocar uma questão importante sobre a mesa: não basta reconhecer a importância da diversidade etária. É preciso criar condições para que ela aconteça. Foi com esse propósito que promovemos debates sobre gestão multigeracional e até experiências de mentoria reversa, nas quais profissionais de diferentes níveis de experiência podiam compartilhar conhecimentos e perspectivas.

A proposta era simples, mas relevante: substituir a lógica de que uma geração ensina e outra aprende por uma visão na qual todos podem ensinar e todos podem aprender.

O mercado também está envelhecendo

Essa discussão ganha outra dimensão quando observamos os números das viagens corporativas. O Levantamento de Viagens Corporativas (LVC), realizado pela FecomercioSP em parceria com a Alagev, projeta que o mercado brasileiro de viagens corporativas alcance R$ 205,6 bilhões em 2026, crescimento de aproximadamente 5% e novo recorde para o setor.

No primeiro semestre, as empresas já movimentaram cerca de R$ 102 bilhões, alta de 5,8% em relação ao mesmo período de 2025.  São números que mostram a dimensão de uma indústria que envolve deslocamentos, hospedagem, eventos, alimentação, tecnologia, mobilidade e uma extensa cadeia de fornecedores.

Mas existe outra leitura possível para esses dados. Quanto maior e mais estratégico se torna o setor, maior é a necessidade de contar com profissionais capazes de compreender diferentes perfis de viajantes, clientes, fornecedores e colaboradores. E isso inclui gerações diversas.

Em um ambiente profissional marcado pela transformação tecnológica, pela inteligência artificial e por novas formas de trabalho, experiência e inovação não precisam estar em lados opostos. Um profissional com décadas de trajetória pode carregar conhecimento sobre negociação, relacionamento, gestão de crises e leitura de cenários que não está necessariamente registrado em uma ferramenta ou sistema.. Ao mesmo tempo, profissionais mais jovens podem trazer familiaridade com novas tecnologias, linguagens, comportamentos e modelos de trabalho.

O encontro dessas experiências pode produzir algo maior do que cada uma delas isoladamente.  Por isso, combater o etarismo não significa apenas criar programas de contratação para profissionais maduros. Significa rever processos, linguagem, critérios de promoção, oportunidades de desenvolvimento e, principalmente, os estereótipos que ainda associam idade a determinadas capacidades.

A pergunta precisa deixar de ser “quantos anos essa pessoa tem?” para se tornar “como essa pessoa pode contribuir?”

A longevidade também transforma o viajante

Existe ainda uma segunda frente que merece atenção: o envelhecimento não transforma apenas o mercado de trabalho. Ele também modifica o perfil do consumidor. Uma população que vive mais e permanece economicamente ativa por mais tempo possui necessidades, expectativas e comportamentos diversos. Para a indústria de viagens e eventos, isso significa pensar em experiências, comunicação, acessibilidade, conforto, tecnologia e atendimento capazes de contemplar diferentes fases da vida.

Não se trata de criar um único modelo de experiência para todas as pessoas acima de determinada idade. Pelo contrário, a longevidade torna ainda mais evidente a diversidade existente dentro desse grupo. Pessoas de 50, 60, 70 ou 80 anos não formam uma categoria homogênea. São viajantes com histórias, interesses, condições e expectativas diferentes. Compreender essa diversidade será cada vez mais importante para empresas que desejam permanecer relevantes.

 

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