Ao longo dos últimos anos, o conceito de Duty of Care deixou de ocupar um espaço restrito às áreas jurídica ou de segurança e passou a integrar, de forma definitiva, a agenda estratégica das organizações. Em um mundo marcado por instabilidades geopolíticas, eventos climáticos extremos, crises sanitárias, transformações regulatórias e novas expectativas sociais, cuidar das pessoas em deslocamento tornou-se uma responsabilidade que vai muito além do cumprimento de normas: trata-se de um compromisso com a vida, com a ética e com a sustentabilidade dos negócios.
Como gestora e como representante de uma entidade que reúne os principais líderes de viagens e eventos corporativos do país, tenho acompanhado de perto essa evolução. Hoje, falar de Duty of Care é falar de governança, de cultura organizacional, de inteligência de dados e, sobretudo, de decisões conscientes que colocam o ser humano no centro das estratégias corporativas.
Por que o Duty of Care é um tema central para o mercado de viagens corporativas
As viagens corporativas nunca foram tão complexas. A retomada acelerada dos deslocamentos após a pandemia trouxe consigo novos padrões de comportamento, novas exigências regulatórias e um nível de risco mais dinâmico e imprevisível. Viagens internacionais, agendas intensas, múltiplos modais, trabalho híbrido e profissionais em constante mobilidade ampliam, de forma significativa, a responsabilidade das empresas sobre seus colaboradores.
Ignorar ou tratar o Duty of Care de forma superficial pode gerar impactos profundos: riscos à integridade física e emocional das pessoas, passivos jurídicos relevantes, danos reputacionais e interrupções operacionais. Por outro lado, empresas que incorporam a gestão de riscos de forma estruturada ganham resiliência, previsibilidade e confiança, tanto internamente quanto perante o mercado.
O gestor de viagens passa, nesse contexto, a exercer um papel cada vez mais estratégico, atuando como elo entre áreas como RH, jurídico, compliance, segurança da informação, saúde ocupacional e liderança executiva.
Cases de sucesso: quando prevenção e governança fazem a diferença
Ao observar o mercado, é possível identificar organizações que avançaram significativamente na gestão de riscos e no fortalecimento do Duty of Care. Esses cases de sucesso compartilham características muito claras.
Algumas empresas adotaram plataformas de rastreamento de viajantes em tempo real, integradas a bases globais de risco geopolítico, climático e sanitário, permitindo comunicação imediata e tomada de decisão ágil em situações críticas. Outras estruturaram comitês multidisciplinares de crise, com papéis e responsabilidades bem definidos, garantindo respostas coordenadas e eficazes.
Também merecem destaque as organizações que investiram fortemente em educação e conscientização dos viajantes, promovendo treinamentos periódicos, campanhas internas e uma comunicação clara sobre políticas, protocolos e deveres compartilhados. Esses exemplos demonstram que o sucesso não está apenas na tecnologia, mas na combinação entre processos, pessoas e cultura.
Impactos e ganhos de uma gestão madura de Duty of Care
Os benefícios de uma abordagem estruturada e estratégica de Duty of Care são amplos e mensuráveis. Entre os principais ganhos estão a redução de incidentes, maior capacidade de resposta a crises, mitigação de riscos legais e fortalecimento da reputação corporativa.
Além disso, empresas que demonstram cuidado genuíno com seus colaboradores tendem a apresentar melhores índices de engajamento, produtividade e retenção de talentos. Em um cenário em que profissionais avaliam não apenas remuneração, mas propósito e valores, o cuidado com as pessoas torna-se um diferencial competitivo relevante.
Há ainda um impacto direto na sustentabilidade do negócio. Organizações preparadas para lidar com riscos são mais resilientes, adaptáveis e capazes de atravessar cenários adversos com menor impacto operacional e financeiro.
O papel das entidades na construção de um mercado mais seguro e responsável
A evolução do Duty of Care não acontece de forma isolada. Ela exige diálogo, troca de experiências, dados confiáveis e alinhamento entre todos os atores do ecossistema de viagens corporativas. É nesse contexto que o papel das entidades de classe se torna essencial.
Na ALAGEV, assumimos o compromisso de liderar essa agenda no Brasil. Atuamos como catalisadores de debates qualificados, promovendo fóruns, comitês, eventos, pesquisas e conteúdos que ampliam a maturidade do mercado e fortalecem a representatividade do gestor de viagens.
Ao conectar empresas, fornecedores, especialistas e lideranças, contribuímos para a construção de políticas mais robustas, decisões mais conscientes e práticas que beneficiam todo o setor. Nosso papel vai além da discussão: buscamos influenciar, orientar e apoiar a implementação de soluções reais e eficazes.
Reflexão final: cuidar é liderar
Duty of Care não é uma tendência passageira. É um reflexo direto da forma como as organizações enxergam pessoas, riscos e futuro. Cuidar dos colaboradores em deslocamento é, hoje, uma demonstração clara de liderança, responsabilidade e visão estratégica.
A reflexão que deixo é simples e necessária: sua empresa está verdadeiramente preparada para cuidar das pessoas em um mundo cada vez mais complexo e imprevisível?
A ALAGEV seguirá atuando como protagonista nesse movimento, fomentando conhecimento, fortalecendo o diálogo e contribuindo para um mercado de viagens corporativas mais seguro, humano e sustentável.
Por
Sheila Camara